Uma experiência de leitura, acredito, muito comum, aconteceu comigo na rua. Ainda em fase de alfabetização, saía lendo tudo o que aparecia em minha frente: nome de lojas, cartazes de promoção, marcas de carro ... e meu irmão, num desafio disse:: "Aposto que você não sabe ler o que está escrito lá", e apontou o nome da Casas Pernambucanas escrito em posição vertical. Eu li rapidamente e olhei para todos que demonstraram orgulho de mim e acreditei que havia realizado um grande feito.
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Ainda, como relato de leitura, quero dizer que morava em uma casa silenciosa. Janelas e portas sempre abertas cedendo lugar à brisa constante. O chão brilhava e o silêncio reinava sempre... As pessoas da família se amavam e se respeitavam, mas conversavam pouco. Aprendi a ler os olhos e o comportamento das pessoas que me cercavam. Vivíamos sempre à espera de um acontecimento novo e de alguém que deveria chegar a qualquer momento.
Um dia, minha mãe, professora, chega do trabalho e traz consigo uma caixa de papelão, retangular e muito pesada. Enfim, "um acontecimento esperado". Abrimos a caixa ávidos por saber o que havia em seu interior. Eram grandes livros de capa dura e coloridos, azul, verde, cinza e laranja (Tenho-os até hoje), os Clássicos da Literatura, os Contos-de-Fadas. Abrir os livros foi um ritual inesquecível; olhar os desenhos, as legendas, os textos que os acompanhavam e a moldura das páginas que trazia personagens do conto.
Os contos foram lidos oralmente por minha mãe e relidos por mim, mas um me fascinou. Em especial, Pinóquio me atraía. Não me cansava de ouvir e ler aquela história cheia de recortes, aventuras, desafios e medos. Percebi que o universo das páginas me levava à reflexão do mundo. Pinóquio representava, para mim, a vida e seus enfrentamentos. O texto se aproximava dos meus sentimentos mais íntimos e me ajudava a me reconhecer.
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A minha relação com a palavra escrita, desde cedo, foi muito cuidadosa. A começar pelo traçado que a mim foi apresentado de forma primorosa. Desde então, a palavra escrita ganhou meu respeito em todas as dimensões: morfológica, sintática, semântica, linguística...
Gosto da palavra bem escolhida, bem combinada, bem expressa. Gosto dos sons que nascem delas e do poder poético que podem assumir.
Para mim, as palavras escritas, reveladoras de uma parte do meu ser, ainda estão guardadas, mas prestes a romper o lacre que as prendem em meus pensamentos e sair elaboradas como merecem.