Dias desses, uma amiga
que tem uma filha de quatro anos me indagou desesperada sobre o fato de sua
filha ainda não estar alfabetizada, respondi a ela ironicamente:
Como assim, quatro anos e ainda não está
alfabetizada? Graças a Deus!
Que mania esse povo tem de achar que criança deve
saber ler e escrever tão cedo assim, pior de tudo é a professora que aconselhou
a mãe a dar sopa de letras à criança, aqueles caça-palavras para que a criança i se familiarize com
as letras. A mãe, não entendendo a gíria pedagógica arrumou a tal da sopa, mas no mercado!
Quando eu penso em meu processo de aprendizagem
de leitura e escrita, penso no quanto estamos perdendo nossas referências
familiares, embora os pais se virem como podem, uma história ali, um livrinho
todo colorido aqui, mas a falta de participação nesse processo, a entrada mais
cedo dos filhos à escola e principalmente o apressamento da alfabetização sem
levar em conta as fases de maturação pelo qual todos passamos.
Aprendi a ler e escrever
assim, por acaso, meu pai é artista plástico, pinta, desenha, entalha, escreve
e como por mimese aprendi algumas coisas, outras não, infelizmente!
Porém, acredito que tudo
tenha sido mágico e absolutamente normal, porque cada palavra, cada livro lido
ficam em mim ainda hoje como uma parte boa de minha vida onde tudo que lia era
unicamente pela vontade, diferentemente de hoje que nem sempre temos essa
opção.
Por fim, fecho esse
pequeno relato com uma frase de Guimarães Rosa em seu livro “Grandes sertões:
Veredas” que descreve um trecho que tomou forma muito significativa em meus
dias de hoje, principalmente em relação à leitura: “A lembrança da vida da
gente se guarda em diversos trechos, cada um com seu signo e sentimento, uns
com os outros não se misturam (...) Tem horas antigas que ficaram muito mais
perto da gente do que outras, de recente data”.
Danielle Nogueira

Nenhum comentário:
Postar um comentário